terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Coisas Estranhas



Calculo que, com todas as actualizações que o meu Windows Vista me pede constantemente, já deve estar mais coisa menos coisa por meados do ano 2050...

domingo, 4 de janeiro de 2009

homem-elefante

"Lembro-me em menino de acompanhar a minha avó ao mercado. Um dos vendedores sofria de elefantíase. Eu olhava para o pé dele, um trambolho imenso, e invejava-o. Acreditava firmemente que o homem estava em transição para elefante..."
José Eduardo Agualusa in As Mulheres do Meu Pai

COIMBRA DO CHOUPAL

Ficámos há uns dias a saber, segundo notícia aqui e aqui, que afinal vamos ser compensados, nós, malta da Lusa Atenas. Finalmente confirmado o projecto de viaduto que servirá as vias IP3/IC2/IC3 e que vai afectar "ligeiramente" a Mata do Choupal de Coimbra. O aval está dado, firmado pelo Ministério do Ambiente. E digo ligeiramente, porque todos sabemos que um corredor de betão e alcatrão de alguns quilómetros a atravessar uma mata, tem tão poucos impactos nesse ecossistema florestal e na vida dos seus bichinhos que mal se notam. Não há ruído, luminosidade, emissões, não há quebra do continuum vegetal, não há nada que possa afectar aquele monte de árvorezinhas que por ali estão, a abrigar uns pardalitos que até vão gostar do "movimento"... Acontece que esta mata não é apenas isso. E digo também que ainda por cima saímos compensados, nós, que vivemos em Coimbra, porque teremos várias árvores plantadas noutro local para podermos delas disfrutar como convém. E lá, onde estão, numa Mata que é só o melhor e mais importante espaço verde de Coimbra (ou era...), até nem fazem tanta falta. No fundo, será maravilhoso, e reflecte bem a visão actual: para os nossos desgovernantes não há árvores, há apenas créditos de carbono, não há ambiente, há economia ambiental, e toca a arranjar uns plátanos pra malta equilibrar a coisa, não vá a desflorestação afectar o balanço de emissões. Mas isto, embora triste, inacreditável e inclassificável, até já sabíamos, tamanha a actividade de um ministério que dizem existir em Portugal, e que dizem ser do ambiente. É mais ao menos, e ironicamente, como o Lince Ibérico no nosso território, dizem que há, mas ninguém o vê... E quando se vê, é para firmar assinatura em mais um projecto que em nada respeita a natureza e o nosso património natural, pelo contrário. Isso também nós já tinhamos percebido. Custa, mas custa ainda mais ter sido este documento assinado por um Sr. Humberto Rosa, secretário estado, que só por acaso se licenciou em Biologia e é Prof. Auxiliar na FCUL. Custa ser um biólogo a assinar um parecer favorável a uma obra deste tipo, numa declaração de impacte ambiental que não coloca sequer soluções e traçados alternativos, e que propõe medidas compensatórias absolutamente ridículas para o impacto que terá no Choupal. É triste, é doloroso. Não se percebe para que servem os EIA em Portugal, não se percebe para que existe o Ministério do Ambiente em Portugal, não percebo o que faz um biólogo num cargo deste tipo, quando tem este tipo de acção (ou inacção), quando o único papel que tem é o de deixar uma assinatura em jeito de parecer redentor em situações sucessivas de crimes ambientais que vão fazendo as delícias dos "evolucionistas" do betão e dos defensores do pseudo-desenvolvimento sob a capa protectora do supremo "interesse público" que tanto nos tira do que temos de melhor no país e nas nossas cidades. Trauteemos então, a letra de José Galhardo, enquanto ainda faz sentido....Coimbra do Choupal, ainda és capital do amor em Portugal, ainda...
Depois disto, talvez que nos reste ainda o amor, talvez... até que o interesse público nos obrigue também a alcatroar o coração.

sábado, 3 de janeiro de 2009

FERREIRA GULLAR


Ferreira Gullar é um dos grandes poetas brasileiros do século XX, nascido na cidade de São Luis do Maranhão em 1930, e um dos meus predilectos. Esteve na vanguarda do movimento poético e artístico brasileiro a partir dos anos 50, na origem do designado movimento concretista e depois neoconcretista, tendo-se voltado mais tarde para a cultura popular, e desenvolvido um papel importante de luta contra a injustiça social e opressão durante a ditadura militar. Tem um site excelente, onde se pode conhecer a obra escrita, e a pequena maravilha de alguns poemas ditos por ele poderem ser ouvidos, além dos "e-poemas", poemas gráficos com animações simples. A visitar aqui


Tato

Na poltrona da sala
as mãos sob a nuca
sinto nos dedos
a dureza do osso da cabeça
a seda dos cabelos
que são meus

A morte é uma certeza invencível

mas o tato me dá
a consistente realidade
de minha presença no mundo

(Ferreira Gullar in Muitas Vozes)

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Ah BB, és o maior!!



Texto lindíssimo e ligeiramente doloroso (como sempre...) de Baptista-Bastos sobre o terminar do ano e do novo que nos surge. "E, no entanto, é preciso sonhar."

começo o ano assim...

Letreiro

Porque não sei mentir,
Não vos engano:
Nasci subversivo.
A começar por mim – meu principal motivo
De insatisfação –,
Diante de qualquer adoração,
Ajuízo.
Não me sei conformar.
E saio, antes de entrar,
De cada paraíso.


Prelúdio

Reteso as cordas desta velha lira,
Tonta viola que de mão em mão
Se afina e desafina, e donde ninguém tira
Senão acordes de inquietação.

Chegou a minha vez, e não hesito:
Quero ao menos falhar em tom agudo.
Cada som como um grito
Que no seu desespero diga tudo.

E arrepelo a cítara divina.
Agora ou nunca – meu refrão antigo.
O destino destina,
Mas o resto é comigo.

Miguel Torga

e assim...

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

2009!

BOAS ENTRADAS!!!
Ou então, Boas Entradas...

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

TODOS OS DIAS, de Jorge Reis-Sá

"Todos os Dias" é o primeiro romance de Jorge Reis-Sá, que terminei recentemente. Jorge Reis-Sá é o responsável pelas Edições Quasi, que é quanto a mim, a melhor e mais estimulante editora no campo da poesia actualmente em Portugal, e tem feito um trabalho magnífico e crucial que deve ser reconhecido, quer no lançamento de novos autores de poesia, quer na reedição de autores clássicos e que se diriam incluídos no “cânone”. E tem também uma outra vertente que a mim me encanta particularmente, a edição de livros compilando letras de cantores, da sua poesia para a música que fazem, dos quais destaco o “Letra Só” de Caetano Veloso e “Na Terra dos Sonhos” de Jorge Palma, e mais recentemente o livro de Leonard Cohen.

Quanto ao romance, é um livro muito bonito e comovente, que se lê num sopro. Um livro sobre a perda de pessoas que amamos. Todos os personagens, narradores cada um deles, vão dando a conhecer as suas vidas simples que giram todas em torno de uma ausência que lhes é comum, de uma morte recente, a de Augusto.
O livro desenrola-se ao longo de um dia como todos os outros, contado desde a aurora até ao cair da noite, como metáfora da própria vida, por Cidinha (também já morta, mãe de António e avó de Augusto), António e Justina (casados, pais de Fernando e Augusto e avós de Rafael) e Fernando que nos trazem os momentos vividos na casa antes da morte de Augusto, muito mais que os momentos que vivem no presente, sempre agarrados àquela presença que já não é e ao que significou quando ainda era.
É um livro sobre pessoas, muito sobre nós; Sobre o que somos na essência, do que somos feitos e do que fazem de nós, da nossa existência inevitavelmente em função do outro, de alguém ou de vários alguéns que nos dão sentido. Existem estas pessoas sobretudo para a perda que sofreram e que não os larga, vivem para e em relação a essa ausência, muito mais do que para si mesmos ou para as suas vidas comuns que se tocam apenas de forma banal, mesmo que quotidianamente juntos. São sobretudo o que perderam naquele neto, filho, irmão, do que propriamente a sua concreta existência. E nem a presença de um menino feliz, o Rafael, parece trazê-los à vida ou ao esquecimento do passado e da perda, em dias que se tornam, todos os dias, demasiados e demasiadamente longos…. Uma escrita muito fiel ao sentir humano, muito real, muito genuína, que chega a fazer-nos esquecer que se trata de ficção, e isso é o que tem de mais magnífico e belo este livro. Além disso, o autor vai buscar expressões, modos de falar e dizer muito fiéis a relações que nos dizem muito e teve a enorme e inexplicável magia de me trazer do baú sentimental que todos temos cá dentro um mundo por mim esquecido mas que ainda guardo, que se resume na passagem em que o menino grita a certo ponto para a avó (como todos gritámos um dia, pequeninos e inocentes):

- Bó! (e é este “bó” assim dito, que tanta, tanta coisa me traz…)
Perguntando-lhe eu
- Que queres?
O meu menino, a minha terra. Aquela que nunca ensinei ao Augusto ou ao Fernando, não mo deixou a vida e o trabalho. Mostro-lhe de que é essa terra feita, as galinhas, os bichinhos como ele já diz. Seguro-o à cinta e repito – Este menino é a melhor coisa do mundo que a gente tem.


É disto que falo, desta humanidade, desta densidade de universos pessoais tão bem descritos, e é esta uma nova literatura portuguesa que merece ser lida, e é este um dos livros que melhor a representa.

sábado, 27 de dezembro de 2008

A pobreza no Porto

O Expresso tem vindo a publicar no seu site uma série de vídeos muito pertinente sobre a Pobreza no Porto, casos extremos de sobrevivência, ou melhor, de "subvivência" nessa cidade, pessoas esquecidas e sujeitas à indiferença de todos... Vejam as histórias e todos os vídeos aqui. Nunca é demais mostrar a realidade que nos escapa tantas vezes.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Letra M (a pedido do meu primo...)



medalha: antigamente havia uma medalha com a efígie do Pai Natal, que se dava aos meninos bem comportados. Agora já não se encontra a medalha e, aliás, já não há meninos bem comportados...

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Letra R





relógio-despertador: o relógio-despertador do Pai Natal é muito prático. Ele indica-lhe exactamente o dia em que deve fazer a grande distribuição de presentes.

Letra T




trança: poucas pessoas sabem que o Pai Natal usa uma trança atrás.

Letra A


arco-íris: não se sabe e nunca se saberá sem dúvida se o Pai Natal passa por cima ou por baixo do arco-íris.
do livro "Dicionário do Pai Natal" de Grégoire Solotareff

Coisas Estranhas

É incrível, mas aconteceu: Jorge Mourinha atribuiu o número máximo de estrelas a um filme, na sua habitual crítica no Público.
5 no total. Espantoso. Nunca imaginei que fosse possível. Ainda me sinto combalido... *