quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Ah BB, és o maior!!



Texto lindíssimo e ligeiramente doloroso (como sempre...) de Baptista-Bastos sobre o terminar do ano e do novo que nos surge. "E, no entanto, é preciso sonhar."

começo o ano assim...

Letreiro

Porque não sei mentir,
Não vos engano:
Nasci subversivo.
A começar por mim – meu principal motivo
De insatisfação –,
Diante de qualquer adoração,
Ajuízo.
Não me sei conformar.
E saio, antes de entrar,
De cada paraíso.


Prelúdio

Reteso as cordas desta velha lira,
Tonta viola que de mão em mão
Se afina e desafina, e donde ninguém tira
Senão acordes de inquietação.

Chegou a minha vez, e não hesito:
Quero ao menos falhar em tom agudo.
Cada som como um grito
Que no seu desespero diga tudo.

E arrepelo a cítara divina.
Agora ou nunca – meu refrão antigo.
O destino destina,
Mas o resto é comigo.

Miguel Torga

e assim...

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

2009!

BOAS ENTRADAS!!!
Ou então, Boas Entradas...

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

TODOS OS DIAS, de Jorge Reis-Sá

"Todos os Dias" é o primeiro romance de Jorge Reis-Sá, que terminei recentemente. Jorge Reis-Sá é o responsável pelas Edições Quasi, que é quanto a mim, a melhor e mais estimulante editora no campo da poesia actualmente em Portugal, e tem feito um trabalho magnífico e crucial que deve ser reconhecido, quer no lançamento de novos autores de poesia, quer na reedição de autores clássicos e que se diriam incluídos no “cânone”. E tem também uma outra vertente que a mim me encanta particularmente, a edição de livros compilando letras de cantores, da sua poesia para a música que fazem, dos quais destaco o “Letra Só” de Caetano Veloso e “Na Terra dos Sonhos” de Jorge Palma, e mais recentemente o livro de Leonard Cohen.

Quanto ao romance, é um livro muito bonito e comovente, que se lê num sopro. Um livro sobre a perda de pessoas que amamos. Todos os personagens, narradores cada um deles, vão dando a conhecer as suas vidas simples que giram todas em torno de uma ausência que lhes é comum, de uma morte recente, a de Augusto.
O livro desenrola-se ao longo de um dia como todos os outros, contado desde a aurora até ao cair da noite, como metáfora da própria vida, por Cidinha (também já morta, mãe de António e avó de Augusto), António e Justina (casados, pais de Fernando e Augusto e avós de Rafael) e Fernando que nos trazem os momentos vividos na casa antes da morte de Augusto, muito mais que os momentos que vivem no presente, sempre agarrados àquela presença que já não é e ao que significou quando ainda era.
É um livro sobre pessoas, muito sobre nós; Sobre o que somos na essência, do que somos feitos e do que fazem de nós, da nossa existência inevitavelmente em função do outro, de alguém ou de vários alguéns que nos dão sentido. Existem estas pessoas sobretudo para a perda que sofreram e que não os larga, vivem para e em relação a essa ausência, muito mais do que para si mesmos ou para as suas vidas comuns que se tocam apenas de forma banal, mesmo que quotidianamente juntos. São sobretudo o que perderam naquele neto, filho, irmão, do que propriamente a sua concreta existência. E nem a presença de um menino feliz, o Rafael, parece trazê-los à vida ou ao esquecimento do passado e da perda, em dias que se tornam, todos os dias, demasiados e demasiadamente longos…. Uma escrita muito fiel ao sentir humano, muito real, muito genuína, que chega a fazer-nos esquecer que se trata de ficção, e isso é o que tem de mais magnífico e belo este livro. Além disso, o autor vai buscar expressões, modos de falar e dizer muito fiéis a relações que nos dizem muito e teve a enorme e inexplicável magia de me trazer do baú sentimental que todos temos cá dentro um mundo por mim esquecido mas que ainda guardo, que se resume na passagem em que o menino grita a certo ponto para a avó (como todos gritámos um dia, pequeninos e inocentes):

- Bó! (e é este “bó” assim dito, que tanta, tanta coisa me traz…)
Perguntando-lhe eu
- Que queres?
O meu menino, a minha terra. Aquela que nunca ensinei ao Augusto ou ao Fernando, não mo deixou a vida e o trabalho. Mostro-lhe de que é essa terra feita, as galinhas, os bichinhos como ele já diz. Seguro-o à cinta e repito – Este menino é a melhor coisa do mundo que a gente tem.


É disto que falo, desta humanidade, desta densidade de universos pessoais tão bem descritos, e é esta uma nova literatura portuguesa que merece ser lida, e é este um dos livros que melhor a representa.

sábado, 27 de dezembro de 2008

A pobreza no Porto

O Expresso tem vindo a publicar no seu site uma série de vídeos muito pertinente sobre a Pobreza no Porto, casos extremos de sobrevivência, ou melhor, de "subvivência" nessa cidade, pessoas esquecidas e sujeitas à indiferença de todos... Vejam as histórias e todos os vídeos aqui. Nunca é demais mostrar a realidade que nos escapa tantas vezes.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Letra M (a pedido do meu primo...)



medalha: antigamente havia uma medalha com a efígie do Pai Natal, que se dava aos meninos bem comportados. Agora já não se encontra a medalha e, aliás, já não há meninos bem comportados...

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Letra R





relógio-despertador: o relógio-despertador do Pai Natal é muito prático. Ele indica-lhe exactamente o dia em que deve fazer a grande distribuição de presentes.

Letra T




trança: poucas pessoas sabem que o Pai Natal usa uma trança atrás.

Letra A


arco-íris: não se sabe e nunca se saberá sem dúvida se o Pai Natal passa por cima ou por baixo do arco-íris.
do livro "Dicionário do Pai Natal" de Grégoire Solotareff

Coisas Estranhas

É incrível, mas aconteceu: Jorge Mourinha atribuiu o número máximo de estrelas a um filme, na sua habitual crítica no Público.
5 no total. Espantoso. Nunca imaginei que fosse possível. Ainda me sinto combalido... *

domingo, 21 de dezembro de 2008

Caetano Veloso - ó meu pai

Delicioso. É um carnaval inteiro ele mesmo.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

A arte a Norte - O exemplo de Serralves

Segundo a notícia do ípsilon (aqui) o Museu de Serralves é já o que tem maior número de visitantes, tendo ultrapassado este ano o Museu dos Coches. Um número espantoso de mais de 400mil visitantes, resultado da magnífica programação do museu, na sua modernização e extraordinária envolvência pelo parque arborizado e multiplicidade de ofertas culturais muito para além da simples função "expositiva". Uma experiência a estudar e a servir de exemplo para museus por este país fora... Eu espero lá voltar para a exposição que decorre de Juan Muñoz e os seus homenzinhos cinza...

Previsões Políticas para o Ano 2009

Estou contente. Hoje tivemos uma (pelo menos, uma) boa notícia: A confirmação da candidatura de Pedro Santana Lopes à CM Lisboa (aqui). É um excelente candidato, e depois do retiro espiritual que fez, da reconversão e renascimento político, penso que tem tudo para ganhar. Acredito profundamente (não é ironia) que o Lopes vai novamente lá parar, estou certo. Numa cidade onde os musicais de La Féria são um assombroso sucesso, Pedro Santana Lopes será sempre um excelente candidato...
Acredito também que será este um primeiro impulso no grande objectivo do Lopes, e que estará atingido a breve prazo, e para meu derradeiro deleite, o de fundar um partido próprio. Não tardará, meus amigos, não tardará! Aguardem. Considero, aliás, que a coisa vai animar bastante. Manuel Monteiro abandonou o seu partido, o que leva à enorme probabilidade de fundar um novo, totalmente diferente, pelo menos no nome... Manuel Alegre está inevitavelmente a criar as bases para também ele dar corpo aos votos que congregou e afirmar-se como voz coerente e consistente à esquerda. Será óptimo para o país, um partido de Manuel Alegre, e ajudará muito a renovar o espírito bolorento que anda pelos principais partidos. É pena que o resto da esquerda, sobretudo o PCP não perceba o reforço do papel que poderia ter no país se aceitasse coligação com as outras forças e com Manuel Alegre. Uma esquerda unida e forte seria fundamental e muito útil, na pressão sobre as políticas actuais, e teria seguramente uma adesão sem precedentes. É no mínimo absurdo que PCP insista nesta posição de firmeza ridícula de não adaptação à realidade e não perceba que seriam os primeiros a beneficiar com uma candidatura conjunta. Quanto a Manuel Alegre, é o único que merece umas considerações actualmente. Admiro-o, votei nele para Presidente. Votaria novamente. Uma vez mais é ele a voz mais inconformada, o que resiste, o que diz não. É ele, curiosamente, o verdadeiro paradigma do que é ser oposição. O que chama para o essencial, alerta, critica, tem voto próprio, opiniões e posições, não joga pelo seguidismo em que se tornou o parlamento e a dupla PS/PSD, e ao mesmo tempo assume-se agora numa última convicção, a da renovação da democracia, da criação de novas formas de intervenção social e política, de apontar caminhos novos e trazer pluralidade como única forma de assegurar a manutenção de valores democráticos, de defendê-los, promovê-los e em simultâneo renová-los. E esta coragem é precisa, cada vez mais, contra o vazio de ideias, de príncipios, de escrúpulos em que se tornaram os partidos principais (PS e PSD), enormes sistemas e máquinas de amiguismo, compadrio e jogos de interesses, que os representam apenas a eles mesmos e aos lobbies que favorecem. E agora, nem poderemos mais utilizar o belo argumento de que nunca assumiu, nunca passou de ideias, utopias e frases poéticas. O seu papel é e será crucial nos tempos próximos, não tenho dúvidas. Ainda assim, não hesito. Desta vez, votarei no Lopes, pelo PJNVF "Partido que Já Não Vai a Festas". A bem do nosso país...

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

relatividade na prática


Solitude
Upload feito originalmente por LJ.

A noite era fria. Gelada. Os graus eram 5. A solução apresentada ainda me arrepia de tão crua: caminhar, deambular toda essa noite, todas as outras. Para que o gelo não se instale e não engula. Sem parar. Sem ter para onde ir, onde chegar. Mero trabalho muscular convertido em calor. Lembremo-nos pois, que um tecto onde dormir e um cobertor onde aninhar podem ainda hoje, ser luxos para alguns, demasiados... Nós, os que nos queixamos do tanto que não temos, e banalizamos o que nos é dado ter. Esquecemos o essencial. Relativizemos.